quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Macau na Festa do Livro em Belém

A Livraria do Turismo de Macau marca presença na segunda edição da Festa do Livro em Belém, uma iniciativa da Presidência da República em colaboração com a APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros), que decorre nos Jardins do Palácio de Belém, entre quinta-feira e domingo - 21 a 24 de Setembro.
Cerca de 50 editores e livreiros estarão presentes neste certame que ao longo de 4 dias apresentará um programa diversificado de actividades, desde lançamento de livros, sessões de autógrafos e debates, passando por sessões de cinema, poesia, música e teatro. Macau estará representado com obras de diversas temáticas, de ficção e não ficção.
A Festa do Livro em Belém irá oferecer várias zonas de leitura com uma ligação aberta ao Jardim Botânico Tropical, bem como uma área de restauração.
Horário do stand da Livraria do Turismo de Macau nos Jardins do Palácio de Belém:
quinta, entre as 18h e as 22h, sexta e sábado das 11h às 22h e domingo das 11h às 20h.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Antes e Depois: Escola Pui Tou

clicar na imagem para ver em tamanho maior
No nº 107 da Rua da Praia Grande está ainda hoje um edifício que pertence à escola Pui Tou, actualmente um dos vários que a instituição de ensino tem no território. De estilo neoclássico, o edifício de 3 andares data da primeira década do século XX (ver a primeira imagem) sendo na década de 1960 acrescentado um quarto piso (imagem a cores na actualidade).

domingo, 17 de setembro de 2017

Recordando Charles Ralph Boxer

Charles Ralph Boxer (1904-2000) foi doutor "honoris causa" pelas mais prestigiadas universidades do mundo e o historiador estrangeiro que mais escreveu sobre os Descobrimentos, expansão e colonização portugueses.
Era de facto um homem muito activo. Costumava dizer:  "I like action - moral courage is much less common than intelligence."
Sem título académico só começou a carreira de investigador aos 43 anos, depois de deixar o exército com o posto de major. Deixou de escrever em 1984 ao fim de mais de 350 livros e artigos publicados... Muitos deles - ilustram este post - são sobre a presença portuguese no Oriente e, naturalmente, sobre a história de Macau onde esteve na década de 1930/40. Mas já lá vamos...
C. R. Boxer nasceu a 8 de Março de 1904, na ilha de Wight, no Sul da Inglaterra. Em 1923 entrou para o regimento de Lincolnshire com o posto de tenente. Ficaria na Irlanda do Norte durante os 24 anos seguintes, seguindo depois para o Japão onde foi oficial intérprete entre 1930 e 1933. Em 1936 é transferido para Hong Kong onde fica estacionado em Hong Kong, como membro dos serviços secretos britânicos.
Nessa altura faz várias viagens pela região e teve acesso a vários livros e documentos antigos. Numa dessas viagens vai a Macau tendo conhececido o padre Manuel Teixeira de quem se tornou amigo. "Um dia, - recorda o padre - perguntei-lhe qual era a sua religião. Ele respondeu-me: 'Do pescoço para cima sou episcopaliano, mas do pescoço para baixo sou mórmon!'"
Tinha grande facilidade para aprender línguas. Para além do inglês, sabia fluentemente o japonês, o português, o holandês, o espanhol, o alemão e o italiano. Quando os japoneses invadem a colónia britânica em Dezembro de 1941 Boxer foi gravemente ferido em combate e feito prisioneiro de guerra. Seria condenado a 35 anos de prisão, passa os três anos seguintes, até à derrota japonesa, em regime de "solitária", em Guangzhou (Cantão). Segundo monsenhor Manuel Teixeira os japoneses "fuzilaram todos os oficiais, excepto Boxer; a ele, torturaram-lhe a mão esquerda, que ficou inutilizada para toda a vida, mas deixaram-lhe a direita para poder continuar a escrever a História, o que ele fez". E é desses anos que resultam inúmeros artigos/livros sobre Macau.
http://macauantigo.blogspot.pt/2009/04/charles-ralph-boxer-historiador.html
Depois da guerra Boxer volta a Inglaterra por pouco tempo regressando ao Japão como membro da delegação britânica na comissão aliada. Durante esse volta a publicar uma série de trabalhos sobre a história do Extremo Oriente, passando a ser, desde então, uma figura conhecida e respeitada na comunidade académica.
Já com mais de 40 anos ingressa na vida universitária como professor de Português, depois professor de História do Extremo Oriente e, mais tarde, professor de História da Expansão Europeia no Ultramar.
Em 1947, Boxer demitiu-se do exército para aceitar o convite para reger a cátedra de Camões, no King's College de Londres, lugar que ocupou até se reformar, em 1967. Seguiu depois para a Universidade de Indiana, em Bloomington, ao mesmo tempo que exercia o cargo de consultor da biblioteca Lilly Library. Entre 1969 e 1972 regeu a cadeira de História da Expansão da Europa no Ultramar na Universidade de Yale. Termina a docência e seguem-se as conferências e as investigações, a maior parte sobre Portugal.
Boxer é membro das academias portuguesas das Ciências e de História e foi condecorado com a Ordem de Santiago da Espada e com a Grande Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique, pelos seus estudos de história portuguesa ultramarina. "The Portuguese Seaborn Empire, 1415-1825" e  "The Christian Century in Japan" estão entre as suas obras mais conceituadas.
Em 1963, no eclodir dos movimentos nacionalistas contra o domínio colonial português, Boxer publicou "Relações Raciais no Império Colonial Português 1415-1825" onde contraria a ideologia subjacente à política ultramarina portuguesa. No livro Boxer não inclui Macau. Conclui-se portanto que Boxer considera peculiar o processo histórico macaense, foram do contexto colonial mais abrangente. Boxer morreu em 2000 com 96 anos.
Sugestão de leitura: "Charles R. Boxer: an uncommon life: soldier, historian, teacher, collector, traveller". Edição F.O. Autores: Dauril Alden, James Cummins e Michael Cooper. A year after the death of what is considered the greatest historian of the Portuguese expansion abroad, the F.O. published "Charles R. Boxer - An Uncommon Life." Prof. Dauril Alden unveils the unusual personality of the historian, soldier, teacher, collector, and traveler who has built since the 30s to the 80s of the 20 century, a unique work: 355 books and articles, a library of rare books (printed and manuscripts) and hundreds of letters, the result of correspondence with researchers from around the world. Committed to making known the whole work of Boxer, the Orient Foundation in 1989 began publishing them in Portuguese. The 5 volumes published until 1993 were added in 2001, three more of a total of 15 designated Opera Minora and bringing together the scattered work of the historian.
Em 2015, no 110.º aniversário do nascimento de Charles Ralph Boxer, a Revista de Cultura - Edição Internacional dedicou a edição nº 47 à vida e obra do historiador britânico.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

História de Macau

“Não é raro que venham a Macau homens de ciência, geralmente comissionados por associações literárias ou científicas, no intuito de colher aqui elementos para estudos históricos ou de crítica. Os japoneses, os ingleses, os franceses, os americanos principalmente são os que se interessam mais por esses estudos.
É natural que Macau, que foi por muitos anos o único porto na China aberto aos estrangeiros, seja considerado como uma excelente fonte de informações para a história dos tempos mais antigos dos europeus no Extremo Oriente. Era por Macau que penetravam na China os embaixadores, os missionários, os negociantes, os exploradores. Em Macau foram impressos grande número de livros sobre a língua e a literatura chinesas, sobre os trabalhos das missões religiosas e políticas, sobre o movimento comercial, etc.
A igreja de S. Paulo ou o que resta dela, os conventos de Santa Clara e S. Francisco, as muralhas, as fortalezas, a Horta da Companhia e tantos outros edifícios religiosos, ou de importância militar, comercial e social no Extremo Oriente. Tudo o que eram relações de europeus ou americanos com a China, com o Japão, com as Filipinas, com Timor, com Sião e ainda em parte com a península de Malaca e com a Índia, partia de Macau ou aqui vinha ter.
Deve-se afigurar, pois, a todos os estudiosos de coisas antigas, Macau como uma mina em que os materiais desejados sejam porventura de extracção difícil, mas abundantes e ricos. É aqui terra de conventos, de frades e de freiras, terra de muitos homens e poucas mulheres, terra de aventureiros e de piratas, que inexaurível mina para romancistas! Pois, meus senhores, podia Dante ter escrito à entrada de Macau o ‘voi che entrate, lasciate ogni speranza’ – porque do muito, do muitíssimo que podia e devia haver, não há quase nada! Desapareceu quase tudo, e o que resta, está para aí abandonado.
Documentos escritos houve inúmeros; mas nunca se coligiram, nunca se seleccionaram, nunca se imprimiram, nunca se catalogaram, nunca se fez o devido caso deles. Andaram de armário para armário, de repartição para repartição, de mão para mão como coisas velhas, bolorentas, inúteis. Outros, o maior número, foram queimados ou comeram-nos os vermes ou levaram-nos os tufões. E hoje, se se quiser fazer a história de Macau em face dos documentos, é isso impossível, porque não existem.
Parece incrível, mas é verdade; uma colónia como Macau não tem história escrita – uma história completa. O Sr. Montalto de Jesus publicou há anos um volume em inglês que intitulou Historic Macao; esta obra, porém, conquanto útil e de merecimento, está longe de poder ser considerada como uma história desta colónia.
O Leal Senado de Macau, instituição quase tão antiga como a colónia, e que tem sempre exercido um papel preponderante na vida local, nunca se lembrou de a mandar escrever. O facto não se justifica por falta de dinheiro, porque o Leal Senado tem-no tido bastante para isso. Não há muitos anos dispendeu alguns milhares de patacas para ocupar os lazeres de dois oficiais do exército sob o pretexto de levantarem uma (levantada) carta de Macau…
A Santa Casa da Misericórdia, outra instituição com séculos de existência, também não tem história escrita. Existem no seu cartório uns livros velhos de quase nenhuma importância; os que tinham valor desapareceram. Não consta, de resto, que alguma vez tentasse pôr em letra redonda o que tem sido e o que tem feito durante a sua longa existência esta instituição.
O Seminário, outra velha instituição, e o Bispado, não menos antigo, estão nas mesmas condições. Alguns documentos existem, velhos, poeirentos, meio comidos, por gavetas e armários; e é tudo. É uma pena; a desorganização entrou connosco e não vemos sinais de ressurgimento. E é ao mesmo tempo uma vergonha que estrangeiros venham aqui frequentemente em viagem de estudo e tenham de partir desapontados. Ainda há poucos dias isso aconteceu com um americano que aqui veio comissionado por uma associação científica de Washington.
Ainda se poderia fazer alguma coisa. Restam dos muitos que houve, vários maços de documentos no Leal Senado, na Santa Casa da Misericórdia, no Seminário, na Sé e em algumas repartições do Estado, que deveriam ser estudados, seleccionados, catalogados e imprimidos. Porque se não faz ao menos isso?
Dever-se-ia ir muito mais longe. Além desses manuscritos, há livros, opúsculos, revistas e outras publicações com notas interessantes para a história de Macau. Dever-se-iam coligir e, ao mesmo tempo, dever-se-ia organizar um índice desenvolvido com referência a tudo quanto a colecção contivesse sobre o assunto e merecesse interesse ou importância.
Era assim que um dia, juntos que fossem todos estes elementos, alguém poderia abalançar-se a escrever a história de Macau. Não é de esperar que a iniciativa particular se lance em semelhante empresa; tudo isso exige muito tempo, muito estudo, muito trabalho, muitas despesas. Deverá o Estado, sendo como é o assunto de interesse público, empreendê-lo, incumbindo pessoa ou pessoas competentes de o levar a termo; e só assim julgamos que é possível dar-lhe boa solução.”
Artigo da autoria de Manuel da Silva Mendes publicado no jornal O Progresso 6.6.1915 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Portuguese Enclave

A 16 de Maio de 1971 a agência noticiosa APN disponiblizou esta fotografia com a seguinte legenda: "Macao, a 6 mile square outpost of Portugal, exists in the shadow of its giant neighbor, Communist China. It survives because at present for economic reasons China has more to gain than lose by allowing continued Portuguese of the small peninsula and its two nearby islands, Taipa and Coloane. Macao is a quiet backwater with na estimated population of 300,000, 98 per cent of whom are Chinese. Perhaps only 2,000 are pure Portuguese, but the Portuguese in Macao remain proud of their traditions and their past."

domingo, 10 de setembro de 2017

As expropriações em Macau

Há mais de vinte anos se anda a expropriar a cidade de Macau e do muito que já foi expropriado, muito pouco, quase nada, se fez que possa ver-se. O Bairro de S. Lázaro e a Avenida de Almeida Ribeiro são as únicas cousas que se vêem modernas na cidade. O resto é velho, medieval.
O que é que tem resultado de tão grande número de expropriações que têm sido feitas? O Boletim Oficial anda sempre, todos os anos, a anunciar expropriações. Todos os anos são demolidos muitos prédios. A Fazenda tem pago nos últimos anos centenas de milhares de patacas. Para quê que proveito tem tirado a cidade de tanto dinheiro gasto?
A única cousa que em tanto deitar abaixo ficou boa, foi o Bairro de S. Lázaro. Esta parte da cidade, sim, é nova, é moderna, ruas alinhadas, limpas, de suficiente largura, tudo obedecendo a um plano. Mas este Bairro foi feito há uns 20 anos. Ora, depois disso, o que é que se tem feito? Em que se tem despendido centenas de milhares de patacas?
Depois do Bairro de S. Lázaro a segunda expropriação grande que se fez foi a de um quarteirão de prédios a norte do Largo de S. Domingos, no sítio em que se acha o Mercado Municipal e o renque de casas que limita pelo norte esse mesmo largo.
Ora o Mercado Municipal custou cerca de oitenta mil patacas e ficou aquela vergonha arquitectónica, que pouca gente conhece bem, porque o nojo impede que lá se entre – se bem que é dali que toda a cidade se alimenta, ou senão toda dali, de outros antros ainda mais nojosos! A Câmara devia ter mandado deitar aquilo abaixo há muito tempo; mas já que o não faz, ponha ao menos na entrada, em lugar alto e bem visível, o busto do técnico, pendurado de uma forca...
A expropriação dos prédios contíguos fez-se ao mesmo tempo ou pouco depois da do terreno do mercado. Dever-se-ia ter feito um plano a que as reconstruções obedecessem; mas não; ou não se fez, ou se se fez permitiu-se que cada qual reconstruísse como quisesse, com o desastrado resultado de ficar o largo cheio de cotovelos, todo desalinhado, fazendo funil para o lado de S. Domingos, assombrando o mercado e tirando-lhe o pouco ar que tinha. E ainda a Câmara Municipal não pôs ali, bem alto também, o busto do técnico enforcado!...
Depois disso tem-se deitado abaixo muita cousa em muitas partes da cidade; mas não é fácil dizer onde, pois que anda a gente pela cidade toda e tudo parece velho. Ainda recentemente o disse um turista norueguês num jornal da sua terra: que Macau é uma cidade pitoresca, de bom clima, mas medieval. Também ele não viu sinais de que nós portugueses andássemos há mais de 20 anos a remodelar a cidade. Não viu nem podia ver, porque, de facto, quanto mais se tem expropriado mais isto tem ficado sempre a mesma cousa.
Os chineses têm a especialidade de fazer as cousas de modo que fiquem logo velhas. Olha a gente, por exemplo, para as embarcações chinesas, algumas ou muitas das quais vimos construir, e parecem-nos arcas de Noé. Entra a gente num estabelecimento para comprar bordados, louças, lacas, bronzes, pinturas, e logo o negociante nos jura que é tudo do tempo dos Mings. Ora não é nada Ming, mas, no aspecto, chega a parecer que o é.
Nós temos também muito desta especialidade chinesa; somos bastante Mings. Não roubam o dinheiro os encarregados das obras e obras se fazem continuamente; mas fica tudo sempre no mesmo Ming. Fazemos em terra, como os chineses na água, arcas de Noé. Se uma rua é estreita porque tem só três metros e meio, expropria-se e faz-se outra com três metros e três quartos. E assim fazendo é que se tem despendido milhares e milhares de patacas em pura perda.


Das grandes expropriações a mais recente é a da Avenida Almeida Ribeiro. Lembramo-nos de que quando se tratou desta expropriação (que teve as honras de um decreto especial), houve técnico ou técnicos que quis ou quiseram convencer o público de que no caso andava agora, então, olhar alto, vista larga – a qual vista larga ou ver longe era a expropriação por um processo novo, um processo que em Paris tinha produzido maravilhas, a expropriar por zonas.
Ora os técnicos, já se vê, são os que sabem; e, em falando deles toda a gente deve ficar calada e podendo ser... embasbacada. Foi o que nos aconteceu a nós; para que ficassem satisfeitos, quando os ouvíamos falar nas vistas largas, amavelmente nos embasbacávamos... Ah! E presenciamos que embasbacou também o elemento oficial não-técnico, que a eles estava agregado, nas deliberações a tomar, dizendo delicadamente a tudo amen.
Fez-se, pois, pela cabeça dos técnicos a Avenida de Almeida Ribeiro e saiu a bota que lá está: em vez de Avenida, uma rua de insuficiente largura para o trânsito. Deveria ser a principal artéria da cidade, com largura para peões, para rickchás, para automóveis, para eléctricos, etc. Afinal, se quiser que seja isso, terá de se expropriar outra vez, de se deitar tudo abaixo...
A especialidade desta expropriação consistia em se tomar uma zona de terreno de cada lado, que dividida em talhões e vendida para construção de prédios, pagasse ou quase pagasse as despesas. Ora nisto se enganaram os técnicos também redondamente. A zona expropriada, viu-se depois, não tinha profundidade para dar cabimento a prédios, e, portanto, rendeu muito menos do que se esperava.
Resultado: nem espaço suficiente para a rua, nem espaço suficiente para prédios como deviam ser. Calculou-se que ali se estabeleceriam os maiores negociantes e também este cálculo falhou. Não há ali, tirante duas casa de câmbio, senão pequenas lojas de barbeiro, lojas de carpinteiro, casas de penhor e quejandas e alguns escritórios. É comercialmente uma rua insignificante.
De notar é também que cerca da quarta parte dos prédios desta soidisant avenida estão normalmente desocupados. Para moradia não servem, porque o maior número deles não tem lugar para poço nem para cozinha; e, por lhes faltar fundo, as escadas de quase todos são tão íngremes que mais parece para gatos do que para gente foram feitas. Dentro, os pavimentos são todos devassados; não há espaço para divisões.
E aqui está o que os técnicos arranjaram. Nós, é claro, não temos ódio nenhum aos técnicos. Não o temos aos que “de verdade” o são. Aos outros, aos técnicos-sapateiros, ódio figadal, também não; mas ódio administrativo confessamos que algum temos, porque podia a cidade ao tempo que se anda a expropriar e ao que com expropriações se tem gasto, estar um brinco e está o que está - medieval. Só disto nos vem o ódio aos sapateiros a que aludimos. De resto, para nós, são todos boas pessoas: somente, se governássemos, amavelmente, os mandaríamos... passear...
Artigo da autoria de Manuel da Silva Mendes publicado no jornal “O Macaense”, 19.10.1919

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Biografia de Manuel da Silva Mendes apresentada em Outubro em Macau

Está previsto para o final de Outubro a apresentação pública em Macau da Biografia de Manuel da Silva Mendes escrita pelo autor destas linhas e dada a conhecer em Portugal em Junho último durante mais uma edição da Feira do Livro de Lisboa.
Darei mais pormenores sobre este evento muito em breve. Aqui pelo blogue continuarei a evocação dos 150 anos do nascimento de Silva Mendes (1867-1931), reproduzindo ao longo dos próximos meses alguns das centenas de artigos escritos pelo punho de MSM e que foram publicados na imprensa macaense nas primeiras décadas do século XX.
Vista actual da casa de Silva Mendes construída na primeira década do século XX
Para mais informações sobre a biografia fica o convite para visitarem a página criada para o efeito. Para além da plataforma da internet, em Portugal o livro está à venda na Livraria da Delegação do Turismo de Macau em Lisboa e na Livraria do Museu do Oriente. Em Macau os locais de venda serão anunciados brevemente.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Bilheteiras do "S.S. Macau" e do "Tai Loy"

Foto do jornal South China Morning Post (Hong Kong) em 1968 onde se podem ver as bilheteiras do "Tai Loy" (tradução Grande Onda) e do "S.S. Macau", duas das principais embarcações que asseguravam as ligações marítimas regulares entre Macau e Hong Kong. 
O Tai Loy atracava no Porto Interior enquanto o S.S. Macau o fazia no Porto Exterior (em baixo fotos do início da década de 1970)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Macau e o Jardim botânico Tropical

Classificado como Monumento Nacional, o Jardim Botânico Tropical situa-se em Lisboa, na zona de Belém, junto ao Mosteiro dos Jerónimos. Ocupa uma área de cerca de 7 hectares - com cerca de 600 espécies vegetais oriundas de todo o mundo -  e foi criado em 1906  no âmbito da organização dos serviços agrícolas coloniais e do Ensino Agronómico Colonial no Instituto de Agronomia e de Veterinária, tendo-se denominado então Jardim Colonial. Não obstante estar aberto ao público e merecer de facto uma visita, o espaço já ostenta sinais claros de degradação.

A Exposição do Mundo Português (1940) ocupou grande parte do jardim com a Seção Colonial dando origem a estruturas como o edifício da Casa Colonial, com painéis de azulejos de temática colonial, o antigo Restaurante Colonial, o Pavilhão das Matérias-Primas e o Arco de Macau que dá entrada ao Jardim Oriental. Nesta zona, que faz lembrar o jardim Lou Lim ioc em Macau, encontra-se um pequeno pavilhão de estilo chinês e uma reprodução da gruta de Camões, muito parecida com a existente em Macau, incluindo um busto do poeta e a reprodução de cantos d'Os Lusíadas.
Da exposição de 1940 ficaram ainda no jardim 14 bustos africanos e asiáticos do escultor Manuel de Oliveira, dois painéis de madeira em baixo-relevo do escultor Alípio Brandão, expostos no átrio do Palácio da Calheta. Tudo a precisar de obras e conservação e restauro urgentes. A entrada custa dois euros. Em baixo uma planta do jardim estando assinalado no círculo vermelho o Jardim Oriental.

sábado, 2 de setembro de 2017

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Rua Madre Terezina

Num dos vários surtos de cólera que atingiram Macau no final do século XIX, distinguiram-se, entre outros, pela sua abnegada entrega, as madres canossianas Teresina (Maria Teresa Lucian) e Joana Biancardi. Ambas foram condecoradas pelo governo de Macau a 30 de Julho de 1897.
De nacionalidade italiana, Maria Teresa Lucian (1845 -1909) foi para Macau em 1869 onde fundou o convento das irmãs canossianas sendo nomeada em 1878 superiora da nova Casa de Beneficência, no Largo de Camões (demolida em 1981). Em 1896, foi eleita superiora da Comunidade Canossiana de Macau (quando esta se separou da de Hong Kong).  De acordo com Monsenhor Manuel Teixeira  ao receber a medalha de prata em 1907, a Madre Lucian teria comentado «Se em vez duma medalha, me dessem um hábito novo, ser-me-ia mais útil». Terá baptizado mais de 15 000 crianças.
A rua com seu nome em Macau começa na Av. Coronel Mesquita e termina na Estrada de Fernão Mendes Pinto, atravessando a Avenida Horta e Costa.
Edifícios demolidos em 2015 na Rua da Madre Terezina

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Caldas da Rainha porcelain: the Macao connection

Portuguese porcelain, Bordalo Pinheiro, gets its inspiration from Shek Wan ceramics
Few people know of the close connection between Macao and the Bordalo Pinheiro family of late 19th century Portugal. Nor do they know how local techniques influenced the popular Caldas da Rainha porcelain from Western central Portugal, including figurines of the iconic everyman Zé Povinho, that remains a hallmark of Portuguese national tourism to this day.
The Bordalo family’s connection to Macao began when the patriarch, Manuel Maria Bordalo Pinheiro, was chosen to sculpt two highly symbolic monuments for Macao: the bust of the poet Luís de Camões and the monument to commemorate the Portuguese victory against the Dutch invaders on the 24th June 1622.
The Camões bust was a personal initiative of the businessman Lourenço Marques, owner of the Garden House and of the garden where the poet’s grotto is found. The job of overseeing the commission went to Carlos José Caldeira, former director of the National Printing Office of Macao, who had meanwhile returned to Lisbon. Manuel Maria fashioned its gesso model after the Camões portrait bust depicted in the “Discourses” of Manuel Severim de Faria, printed in Évora in 1624. The bust replaced one that had stood in the Camões Grotto since 1840, a piece crudely crafted “in bronze limestone or clay by Chinese artists.”
The Victory Monument was meant to replace the wooden cross that then marked the site (now the Victory Garden) where a cannonball shot from the Monte Fortress had found its mark, exploding the Dutch troops’ gunpowder wagons and deciding the battle in favour of the Portuguese.
While the replacement of the Camões bust was uncontroversial, replacing the Victory Monument proved quite the opposite. Foreign citizens were said to have raised objections to the initiative, claiming that it offended them. Given the nature of the monument, such complaints likely came from citizens of the Netherlands or representatives of that country in Macao. The monument thus remained in a Loyal Senate warehouse for eight years before it was finally unveiled by Governor António Sérgio de Sousa on the 26th March 1871.
Manuel Maria remains a peerless figure in the art history of Portugal, standing out as one of the most expressive representatives of Romantic art. In addition to the monuments, he left behind a large number of historical and anecdotal paintings, many of them earning prizes in exhibitions abroad. He simultaneously directed illustrated periodicals as well as the first fine arts journal, and worked with the great historian Alexandre Herculano on founding the magazine Panorama.
The family legacy
The Bordalo Pinheiro children, eight sons and daughters, were also directly or indirectly linked to the arts. The fourth son, Columbano, continued his father’s work in the area of painting, producing notable portraits of some of Portugal’s leading contemporary figures. But the most well known of the siblings today is his brother Rafael. He was a pioneer designer of the artistic poster as well as a draughtsman, watercolourist, illustrator and decorator. Above all, Rafael was known as a caricaturist and ceramicist, as well as a teacher. He created the character known as Zé Povinho, who became a symbol of the Portuguese common people. The sisters are also said to have been closely linked to the arts. Although they never reached the heights of fame.
Only two of the eight brothers did not follow their father’s footsteps. Manuel was educated in medicine, following a military career, while Feliciano chose engineering but likewise joined the army. He would end up grounding the family’s entrepreneurial involvement in the resurgent pottery industry of Caldas da Rainha in central Portugal.
The Macao Connection
Feliciano, an artillery captain, was mobilised to Macao, where he occupied the post of public works director for a few short months in 1875. His contribution to culture in Macao went beyond his responsibilities as head of public works, though. He actively took part in a diverse array of initiatives, mainly in the cultural and artistic domain. He thus benefited not only from the specific environment in which he lived, but also from a relative affluence which allowed the government to move forward with various projects, among them construction of the Conde de São Januário Hospital, a major project designed by António Alexandrino de Melo, one of the two architects (the other previous one was José Tomás de Aquino) who most impressively marked the 19th century.
During his service in Macao, the city enjoyed an exceptionally rich cultural environment. Cultural activity revolved around two poles, the Military Club and the Dom Pedro V Theatre, where the concerts and operatic works featured some of the leading performers of the age. Music and the arts in general were held particularly dear, with growing interest in collecting, especially classical Chinese porcelain and painting from diverse schools.
Among the most well known Chinese porcelain schools then highly valued in Macao was that of Shek Wan.
Shek Wan's Influence
The important ceramic production centre of Shek Wan is situated in the Foshan region between Macao and Guangdong. Ceramics produced there “are popularly themed and combine ornamental with natural forms, highlighting the mastery of ceramic firing technique, leaving areas of uncoloured clay enlivened by the glazed pigments.” That decorative technique emphasises ivory-whites and various tones of blues, reds and greens. The school’s themes focused on popular imagery, particularly of Chinese legends and heroes.
The Shek Wan work then circulating in Macao did not go unnoticed by Feliciano Bordalo Pinheiro, who apparently made a personal trip to the region to learn the secrets of its manufacture.
Upon recognising the craft’s singularity, Feliciano likely realised that the porcelain industry of Caldas da Rainha, then much deteriorated, might gain some future viability through use of the Shek Wan technique. Although he was basically a businessman, Feliciano did have a certain artistic facet. The two sides of his character enabled him to accurately assess just how far the technical innovations of Shek Wan could be translated into economic success.
Joining Talents
Feliciano was sure of his entrepreneurial talent and he trusted the creative capacity of his brother Rafael. In 1884, Rafael had made yet another addition to his talents, becoming a ceramicist. “He began in April of that year at the Gomes Avelar factory in Caldas and soon opened his own facility, the Ceramics Factory of Caldas da Rainha financially backed by Feliciano, where he would give free rein to his creative power,” stated the great heritage researcher Irisalva Moita, a pioneer of industrial archaeology, who studied in depth the history of the Bordalos’s ceramic industry.
Feliciano invested 800 contos, an extraordinarily high sum at the time, to restore the ruined factory. He also provided his brother with technical details about the manufacture of Shek Wan porcelain, a role corroborated by Monsignor Manuel Teixeira, who stated: “it is clear that Feliciano took his chinoiseries to Portugal, which eventually inspired his brother Rafael!”
The story of the revived ceramic ware tradition in Caldas da Rainha owes a great deal to Feliciano Bordalo Pinheiro. Inspired by his time in Macao, his investment in Ceramics Factory of Caldas da Rainha gave rise to an industry that remains successful to this day. It also led Rafael to create the distinctive type of ceramic ware that is perennially linked to his name.
Text João Guedes
Photos António Sanmarful
Macau (Issue N.40, May 2017)

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Cinema Alegria

Fica no cruzamento da Travessa da Corda com a Estrada do Repouso este cinema construído em estilo Art Déco a 15 de Fevereiro de 1952 e ainda hoje aberto ao público. A estreia do "Alegria" deu-se com a exibição do documentário "A China Libertada".
A RPC tinha sido criada em 1949 e pouco tempo depois foi construído este espaço por iniciativa de um grupo de abastados comerciantes chineses liderados por Ho Yin, Ma Man Kei e Chan Chek San.
A sala começou por ter capacidade para 600 lugares sendo depois ampliada para cerca de mil (em 1957). Por oposição às demais salas de cinema do território por ali eram exibidos sobretudo películas eminentemente patrióticas de cariz político alinhadas com o poder político instalado na China incluindo-se as produções congéneres de países como a Rússia, Coreia do Norte e Vietname.
Para além dos filmes, o espaço tem ido utilizado ao longo dos anos para exibições de companhias de ópera cantonense, para a gala anual de celebração do Dia Nacional da China, torneios desportivos (ténis de mesa, xadrez chinês...), espectáculos de acrobacia marcial, cerimónias de graduação das escolas, etc...
Ao longo dos anos, foi alvo de várias obras de restauro.
De seguida, uma sequência de três fotografias da autoria de Ou Ping em 1968.


Em cantonense, o cinema denomina-se Wing Lok/Veng Lok, o que significa literalmente, Felicidade Eterna.
1972: no 23º aniversário da RPC


sábado, 26 de agosto de 2017

Macau por Paul Morand


Edição de 7 Novembro de 1925 do jornal francês "Le Journal" com um artigo na primeira página intitulado "Notes de voyage a Macao par Paul Morand" (1888-1976), escritor e diplomata francês. No artigo (crónica) publicado na primeira página o conceituado escritor escreve que "Macau foi o Hong Kong português do século XVI". A 19 de Dezembro desse ano o artigo seria referido no jornal brasileiro "O Paiz",  num artigo de opinião também publicado na primeira página.
Paul Morant (1888-1976) foi um diplomata, académico, escritor e jornalista francês. Em 1925, era então diplomata, passou por Macau numa viagem pelo mundo.  No ano seguinte passaria as impressões dessa viagem para um livro intitulado Rien que la Terre (excerto em baixo).

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A colecção de Pessanha


A propósito dos 150 anos de Camilo Pessanha reproduzo um artigo de Alberto Osório de Castro, redigido a pedido de Carlos Amaro, por volta de 1916, com o objectivo de sensibilizar a direcção do Museu das Janelas Verdes (actual Museu Nacional de Arte Antiga) para a importância da colecção que Pessanha oferecera ao Estado português em 1915.
Reza a história que Pessanha ficou bastante desagradado com a forma como decorreu a doação, no Verão de 1915 - anúncio da doação saiu no jornal O Progresso, de Macau, a 1 de Agosto - depois das melhores peças do seu acervo particular terem estado expostas no Palácio do Governo. Só cerca de dois anos mais tarde o espólio chegaria a Lisboa e, quando chegou, não foi aceite pelo Museu das Janelas Verdes (uma carta de Pessanha datada de Abril de 1917 confirma este facto) sendo depois enviado para o Museu Machado de Castro, em Coimbra, onde as peças ficaram, excepto por breve período, sepultadas no depósito, fora do alcance do público.
Hoje o espólio de cerca de 400 peças - inclui pintura e caligrafia chinesa, têxteis, jóias e objetos religiosos, bronzes diversos e esculturas em madeira e marfim, embutidos e cerâmicas está à guarda do Museu Machado de Castro.
PS: voltarei ao tema muito em breve com a reprodução de um artigo publicado em 1926.
Simplesmente par droit d´aînesse entre os amigos e admiradores de Camilo de Almeida Pessanha, quis o grande amigo do Poeta, o brilhante jornalista Dr. Carlos Amaro, que algumas palavras minhas acompanhassem estas fotografias da arte chinesa que a Ilustração publica, e representam a magnífica colecção de cem peças características da arte milenária do Celeste Império oferecidas por Camilo ao Museu das Janelas Verdes.
Como essas fotografias avivam em mim a esta hora de Inverno português, entristecida de lufadas e névoa, a relembrança dos resplandecentes dias abafados de espera de tufão, vividos em companhia de Camilo, em Agosto de 1911, na linda e melancólica, risonha e estranha terra de Macau, à maravilha católica e china, china sobre tudo, já agora, cheia de repiques finos à missa, de discretos biocos de confessadas, de silenciosos deslizes de milhares de Celestes, atravancando as ruas cada dia mais, invadindo as praças e rossios, coalhando as airosas lorchas do porto, gente atarefada e calada, reservada e de nós distante, aparentemente impassível, mas em cuja massa se sente a força profunda da maré que avança, e vai avassalar o velho empório europeu de veniaga nas Costas da China.
Pobre e linda Macau dos séculos xvi e xvii, como és ainda curiosamente portuguesa à moda desses séculos, sob a taciturna invasão china que te envolve e todavia te dá ainda um aspecto de vida!
E contudo, ó arcaica Macau, desde que Fernão Mendes Pinto andou de aventura no Império do Meio, assistindo aos primeiros avanços da potência tártara, que de memoráveis coisas se não deram nessa China imensa que só na aparência é milenariamente imóvel: abalada para o sul dos exércitos tártaros da Manchúria, queda da dinastia chinesa dos Ming, sangrento, como nenhum outro, triunfo da dinastia Manchu dos Ta-Tsing, dois séculos de terrível agitação das associações secretas chinesas contra o vencedor tártaro, indo, poucos meses após a minha passagem em Macau, até à abdicação do último imperador Ta-Tsing e à proclamação duma república à europeia ou americana, como compasso de espera da passagem da sombra de um novo Dragão imperial….
Tanta coisa a dizer sobre a China e a sua arte! Mas o espaço é limitado nesta revista, naturalmente. O que é e o que vale a colecção que Camilo Pessanha acaba de oferecer a Portugal, e está representada nestas três fotografias da Ilustração do Século, mandadas ao Dr. Carlos Amaro pelo bravo oficial da Armada, [ Sr.] José Carlos da Maia, hoje o governador de Macau. Críticos de arte competentes o dirão ao público. Assinalo apenas na formosíssima colecção que vai entrar no Museu das Janelas Verdes, as pinturas de Sou-Loc-Pang, o Ho-Ku-Sai chinês, que um poderoso mandarim artista disputaria a punhados de prata de lei; reconheço esbeltíssimos vasos de obra de cloisonné, de champ-levé e de nielagem; preciosas cerâmicas dos Ming; craquelés da vetusta dinastia dos Song, que teve no seu império tão grandes artistas; estatuetas de porcelana, e bronzes litúrgicos duma patina acentuada pelos séculos; charões e madeiras marchetadas; esculturas de marfim, unicórnio, âmbar e pau de águila; pedras duras e cristal de rocha talhados com a lenta paciência do sonho, ao molde de todas as formas quiméricas, das frutas e das corolas mais raras dos vergéis de Aladim.
É todo o prestígio e a fantasmagoria da cisma forte do ópio no cérebro dum Quincey, de Gautier, e do pobre Gérard de Nerval. Camilo acaba de dar à política terra portuguesa, que quase não cura já senão de politicar, o mais elevado exemplo de grande poeta e de grande patriota. Em plena Lisboa politicante, Camilo Pessanha vai-nos pôr, em um museu público, de novo em contacto, pela magia da arte (quand nous parlons aujourd’hui de la «Magie de L’art», nous ne savons pas combien nous avons raison, diz Salomão Reinach), com as velhas civilizações requintadamente artísticas da China e do Japão, que um momento nos deslumbraram no século xvi, nesse século em que a nossa Pátria era ainda uma coisa viva e orgânica, vivendo por todas as suas células e os seus tecidos mais delicados.
Da maravilhosa colecção de Camilo, feita com tanto amor, e à custa talvez do melhor dos seus momentos de funcionário e de lucidíssimo advogado, cem dos mais característicos exemplares são por ele oferecidos ao Museu das Janelas Verdes.
Que ao menos os artistas de Portugal, pintores, arquitectos, escultores, músicos e poetas, artífices dos metais preciosos e das finas pedrarias, das palavras e dos ritmos da Língua, actores, bordadores, lavrantes, e decoradores, criadores geniais ou simples diletantes, todos os que põem na arte a mais pura nobreza da sua inteligência e do seu sangue, os que só pela virtude mágica misteriosamente evocadora da arte esperam ainda manter viva e sensível a velha encantadora alma de Portugal, que ao menos esses, entre a turba agitada, recebam com discreto e comovido louvor o sortilégio que nos chega do Sol levante doirado, o dom magnífico do Poeta, o dom feito em vida, porque postumamente Camilo se fará relembrado pela adaptação ou adopção mais bela que possa imaginar do florido lirismo da China.
Dia a dia Camilo decifra e traslada do Chinês tudo o que, de mais singular, afinado e humano criou para enlevo de milhões de almas tão diversas das nossas o génio poético da imensa China matizada de jamais vistas peónias. A China através da alma estranhamente sensitiva de Camilo! Canta docemente uma das suas líricas de «Poeta Maldito» cismando na esteira fina da fumaria:
O meu coração desce,
Um balão apagado…
Melhor fora que ardesse
Nas trevas incendiado.
Há-de arder, estou certo, há-de arder o seu pobre coração de grande poeta para todo sempre exilado, e no mais belo, imaginoso, florido e espiritual incêndio de poesia sensitiva que Portugal jamais viu: num pomar de cerejeiras em flor a arder, ferido pelo fogo de todas as centelhas, da tempestade que nos arrebata, da noite trovejante que sobre nós se cerra…

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Macao - La Traversée en mer

Folheto turístico de 1985 onde se destaca o hydrofoil e o ferry Nam Shan como duas das possibilidades de efectuar a ligação marítima com Hong Kong e dali para o resto do mundo via avião.
No folheto menciona-se o facto de Macau possuir a maior frota de hidroplanadores do mundo. Com capacidade para transportar 700 passageiros asseguram a viagem em 90 minutos, todos os dias entre as 7 e a uma da manhã. Destaca-se a "grande variedade de hotéis" existente no território, nomeadamente os hotéis Lisboa e Sintra.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Os táxis e o campino

Uma das imagens de Macau nas décadas de 1970/80 era a praça de táxis do "lisboa", instalada entre a entrada do casino e a entrada do hotel. Virado em direcção à Taipa (ao fundo na imagem) os táxis viravam ligeiramente à esquerda, subindo uma pequena rampa onde os aguardava um recepcionista vestido de campino que ordenava o trânsito ao som de um apito e de quando em vez recebia uma gorjeta dos fregueses...
Eu tinha na altura cerca de 10/12 anos e no caminho para o Liceu (que se vê ao fundo na imagem) passava pelo hotel Lisboa. Desse percurso diário ficou para sempre na memória a imagem do campino com o qual julgo nunca ter falado directamente. Mais tarde vim a saber era um reformado da polícia. Chamava-se Encarnação, era oriundo das Beiras e casou por Macau com uma macaense.



terça-feira, 15 de agosto de 2017

La précarité au défi des siècles


No "Cahiers d'outre-mer", edição nº 157 de Janeiro/Março de 1987, o belga Jacques Denis - director do departamento de geografia da faculdade de Namur -  assina o artigo "Macao : la précarité au défi des siècles". Trata-se de uma retrato sócio-económico do território no início da década de 1980 que abrange os seguintes temas: Deux mots d'histoire; Le cadre physique; La population; Les structures économiques; Industries manufacturières; Le commerce extérieur; Le tourisme; Les infrastructures; Deux mots de prospective.
Excerto:
"Façades aux tons pastels, ornées de balcons ouvragés et de lourdes portes de bois cloutées, boutiques chinoises bariolées, marchés grouillant de vie et de couleurs, temples écrasés sous leurs toits de tuiles vernissées, églises baroques flamboyantes, forteresses aux puissantes murailles, entrelacs de ruelles accrochées aux pentes des colines, il n'est pas facile, à Macao, de se situer dans le temps e dans l'espace. (...)"


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Kit Yee Tong

Kit Yee Tong, the oldest martial arts club in Macao
Standing opposite to the historic Na Tcha Temple of Mount Hill is a humble two-storey compound home to a kung fu legend more than a century old. It began in 1914, when a group of local kung fu practitioners formed a lion dance troupe to participate in the firecracker-grabbing races during major festivals. The team soon attracted more like-minded people and, in 1921, it officially transformed into a martial arts club called Kit Yee Tong, or the congregation of righteous men.
Li Fok Nga, an established kung fu expert from Hainan, was invited to be the master coach of Kit Yee Tong. Master Li specialised in Wu Hsing Hong Quan (Five Forms Fist), a kung fu style that simulates five animals – Dragon, Tiger, Leopard, Snake, and Crane. Taking the simple compound on Mount Hill as a teaching base, he quickly became a highly respected figure within the neighbourhood.
The passion for kung fu dissemination was soon overshadowed by an urge to defend the country. When the Japanese invasion of Manchuria began in 1931, Master Li volunteered to join the legendary 19th Route Army of the National Revolutionary Army, fighting in the First Battle of Shanghai. Appointed as the coach of a machete squad, he led his fellow fighters in midnight attacks on Japanese military camps. While Master Li and other warriors were risking their life on the battlefield, people in Macao were filled with a sense of patriotism. Members of Kit Yee Tong, along with other devoted individuals and associations, organised dragon dance and kung fu performances to raise funds to support China against the Japanese invasion. Unfortunately, Master Li became very sick during his military service and was commanded to return to Macao for better medical treatment. His health continued to deteriorate; he passed away at the age of 45.
Today, Master Li is remembered as the pioneer of Kit Yee Tong. A memorial tablet affixed to the entrance of the compound commemorates his wartime contributions. His training weapon, a rusted trident more than a metre long, is regarded as a spiritual mascot by the members of Kit Yee Tong. Na Tcha Festival is the biggest annual event for Kit Yee Tong. Since its establishment in 1921, the club has sent lion dance troupe to take part in the celebration each year.
Excertos de artigo de Cathy Lai e António Sanmarful in Macao, nº 41, Julho 2017. Segue-se uma tradução livre dos excertos.
A “Ou Kong Si San Kit Yee Tong” é a mais antiga associação desportiva de artes marciais chinesas em Macau.
Em frente ao histórico templo de Na Tcha, nas traseiras das ruínas de S. Paulo fica um pequeno edifício de dois pisos, que alberga uma lenda do kung fu há mais de um século. Tudo começou em 1914 quando praticantes locais de kung fu formaram um grupo de dança do leão para participar nas festividades chinesas. O grupo depressa cresceu e em 1921 foi formado oficialmente um clube de artes marciais chamado Kit Yee Tong, cuja tradução significa congregação de homens justos.
Li Fok Nga, um especialista estabelecido em kung fu de Hainan, foi convidado a ser o principal treinador do clube.  O mestre Li era especializado em Wu Hsing Hong Quan (Five Forms Fist), um estilo de kung fu que assenta a sua base nos movimentos de cinco animais: Dragão, Tigre, Leopardo, Serpente e Grou (ave). A paixão pela disseminação do kung fu seria ofuscada pelo um desejo de defender o país aquando da invasão japonesa da Manchúria em 1931 e o Mestre Li foi como voluntário para o lendário 19º batalhão do Exército Nacional Revolucionário, lutando na primeira batalha de Xangai.
Por Macau, a Kit Yee Tong, juntamente com outras associações organizaram performances de dança de dragão e leão bem como demonstrações de kung fu com o objectivo de arrecadar fundos para apoiar a China contra a invasão japonesa. O mestre Li acabaria por adoecer e regressar a Macau onde morreu aos 45 anos sendo desde então lembrado como o pioneiro do clube Kit Yee Tong.
Um quadro evoca a sua memória, bem como a sua arma de treino, um tridente enferrujado de mais de um metro de comprimento, considerado a mascote espiritual pelos membros do Kit Yee Tong. Desde a fundação em 1921 a Kit Yee Tong participa no festival em honra de Na Tcha.
Sugestão:
Se está por Macau por estes dias, não perca a oportunidade única de assistir ao “Encontro de Mestres de Wushu 2017”, um evento de celebração de artes marciais tradicionais entre 10 e 13 de Agosto. Durante o encontro, que reúne alguns dos melhores mestres mundiais de Wushu, estão previstos vários eventos que combinam elementos desportivos, turísticos e culturais: “Suncity Grupo CKF Desafio Internacional de Combate - Macau”, “Festival Wushu de Verão”, “Competição Internacional de Taolu”, e “SJM IV Campeonato Asiático das Danças de Dragão e de Leão”.
Nota: Wushu significa literalmente a “arte da guerra” e é uma expressão que designa todas as artes guerreiras, militares ou marciais. O kung fu faz portanto parte do Wushu, mas é apenas um estilo/arte marcial entre centenas que se praticam na China e um pouco por todo o mundo.