segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Citações sobre MSM no dia do aniversário

Manuel da Silva Mendes nasceu às quatro horas da tarde do dia 23 de Outubro de 1867 sendo baptizado dois dias depois. Os livros de registo de baptismo da paróquia de S. Miguel das Aves assim o atestam. 
“Aos vinte e cinco dias do mês de Outubro do ano de mil oitocentos e sessenta e sete nesta Igreja Paroquial de São Miguel das Aves, Concelho de Vila Nova de Famalicão e Diocese de Braga, baptizei solenemente com imposição dos santos óleos um indivíduo do sexo masculino a quem dei o nome de Manuel, e que nasceu nesta freguesia às quatro horas da tarde do dia vinte e três do dito mês e ano, filho legítimo primeiro deste nome de José da Silva Mendes, tamanqueiro, e de Rosa da Silva Pinheiro, ele natural da freguesia de Romão, anexa a esta de São Miguel das Aves, ela da freguesia de Delães, do dito Concelho e Diocese, recebidos nesta freguesia paroquianos desta freguesia, moradores no lugar de Romão, neto paterno de José da Silva Mendes, e de Maria Rosa de Paiva, ambos naturais desta freguesia, materno de Manuel António da Silva Pinheiro e de Joaquina Maria de Azevedo, ambos naturais da freguesia de Delães. Foi padrinho eu reverendo baptizante Manuel Joaquim da Mota, Abade desta freguesia, e madrinha Joaquina Maria de Azevedo, casada, vendeira da freguesia de Delães, os quais todos sei serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado este assento, que depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, o padrinho assinou, e a madrinha não assinou por não saber escrever.” 

Farol da Guia e em baixo parte da residência de MSM: década 1960


Citações
“Observador arguto, crítico contundente, reverente apaixonado de arte chinesa, cultor e poeta do taoísmo. Um perfil de homem público e de letras, injusta e inteiramente desconhecido pelos portugueses de Portugal, mas que está no coração e admiração dos macaenses, muito mais, e a grande distância, do que Wenceslau de Moraes ou Camilo Pessanha”.
Henrique de Senna Fernandes

“Uma personalidade invulgar que atraiu muitos amigos e admiradores, e certamente outros tantos inimigos pois não era de molde a agradar a todos.”
Graciete Batalha

“Espírito cáustico e sardonicamente crítico do fino observador”.

Luís Gonzaga Gomes

“Escondia uma alma de artista num corpo estruturalmente plebeu, temperando a sua prosa, sempre correcta, com humorismo, que chega a tocar as raias da irreverência.”
Francisco de Carvalho e Rêgo

“Os seus conhecimentos de arte chinesa granjearam-lhe a reputação de ser o europeu que, na Costa da China, mais sabia do assunto. As suas colecções justificam a fama que teve.”

António conceição Júnior

“Profundo conhecedor da história chinesa, entusiasta admirador da arte que veio encontrar no Oriente, manifestou de forma preferencial o fascínio que sobre ele exerceu tudo quanto tivesse ligado ao fabrico da cerâmica. Teve a noção do seu valor estético. Coleccionou pacientemente e foi um pioneiro.”
Beatriz Basto da Silva


in Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931. Edição de autor + ICM, Portugal, 2017

domingo, 22 de outubro de 2017

Palanchica





Palanchica era um pequeno baluarte ou fortificação que existiu no cimo da colina do Patane. Rodrigo Marim Chaves fez esta descrição no livro "O Renascimento do Município Macaense":
"Perto da ermida (de S. António) construiu-se uma tranqueira, pequena fortificação levantada para o que desse e viesse e equipada com algumas peças com que as naus do Japão a dotaram. Este baluarte foi por muito tempo conhecido pelo qualificativo de Palanchica, da qual é descendente a actual travessa da Palanchica que liga hoje a praça Luís de Camões, por um lado, com a rua dos Colonos, indo esta terminar no Tarrafeiro, e por outro lado, e nas alturas da escada do Papel, com a travessa do Patane, à qual se seguem a calçada das sortes, rua da Palmeira e largo do Pagode".

Em "História da Arquitectura em Macau", Maria de Lourdes Rodrigues Costa escreve: "Na zona do Patane existiu um forte, do Patane ou Palanchica, não se conhecendo a data da sua construção, supondo-se que tenha sido em 1625. Encontrava-se integrado na muralha que ligava o Porto Interior ao Monte, com a finalidade de proteger a cidade de uma possível invasão da China. Era formado por três plataformas, tendo cada uma delas uma peça de artilharia, conforme se vê em desenhos da época. Foi demolido por volta de 1640, com todo o pano de muralha a que estava ligado."

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Instrucção Ministrada no Lyceu Nacional de Macau: 1905


A 28 de Março de 1905 o Boletim Oficial teve um suplemento onde se publicaram uma série de elementos estatísticos relativos ao mês de Janeiro desse ano. Entre os diversos mapas apresentados está o "Mapa estatístico da instrução ministrada no Lyceu Nacional de Macau" assinado por Manuel da Silva Mendes, reitor interino e professor. Nessa altura o Liceu era composto por três classes e um total de 19 alunos.
clicar nas imagens para ver em tamanho maior


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Tarrafeiro: mercado, rua e beco

Em cima, duas imagens de Pedro Pinto, do pórtico que resta do antigo mercado público “Kông Yêk” (公益街市) , em português, Mercado do Tarrafeiro.
M. V. Basílio diz que "é o único pórtico que resta do extinto Mercado do Tarrafeiro, em chinês, Kông Yek Kai Si, que era delimitado pela Rua de Cinco de Outubro, pelas Travessas das Galinholas, do Alpendre e do Muro. Ainda tive a oportunidade de ver, há cerca de 20 anos, um pórtico igual na Travessa do Muro, ostentando os caracteres chineses Kông Yêk Kai Si. Infelizmente, aquando da construção de um novo prédio nessa Travessa, aquele pórtico foi demolido. Em baixo, uma foto extraída do livro “Coisas de Macau”, de Álvaro de Melo Machado, em que se pode ver os caracteres chineses公益街市num dos pórticos."

Tarrafeiro é o nome por que se costuma designar a parte da cidade de Macau situada no sopé que foi dum morro, no alto do qual hoje se encontra a igreja de Santo António.
A Rua do Tarrafeiro foi oficialmente 'baptizada' em 1869. A origem do termo “tarrafeiro” remete para o pescador que utilizava uma “tarrafa” - rede de pesca circular, de malha fina, com pesos na periferia e um cabo fino no centro, pelo qual é puxada - muito popular em Macau. Com o tempo e o desenvolvimento social, a Rua do Tarrafeiro acabou por ficar rodeada de urbanizações, em vez da beira-mar com as tradicionais tarrafas.
Sugestão de leitura: "O Tarrafeiro" in Curiosidades de Macau Antiga", de Luís Gonzaga Gomes, edição "Notícias de Macau" em 1952.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

"Porta Cerco, the gate dividing Portuguese and Chinese territory"

Nos primeiros anos de 1900, duas empresas de Hong Kong, a M. Sternberg e a Graça & Co. publicaram dois postais ilustrados alusivos à Porta do Cerco que têm uma particularidade: são iguais. Na imagem surge parte da tripulação da canhoneira Zaire que chegou a Macau a 12 de Agosto de 1900 na sequência da Revolta dos Boxers, evento ocorrido no norte da China meses antes. O Corpo Expedicionário era "constituído por 14 oficiais e 368 praças de pré, uma Companhia de Calçadores 3, uma Bataria de Artilharia 2, elementos do serviço de saúde e administrativos.”
"Porta Cerco, the gate dividing Portuguese and Chinese territory. Macao."
Uma legenda com um erro: "Porta Carvo"
Atente-se na diferença de cores usadas pela empresa de M. Sternberg (acima) e a de Graça & Co. (abaixo)
A "Zaire" (1884-1916)
Na edição de Março de 1902 da revista Serões, J. F. Marques Pereira, assina um artigo - Portugal e a China ante a questão de Macau - ilustrado com "15 gravuras, cópia de photographias" de P. Marinho, onde aborda esta problemática. No texto introdutório escreve: Os recentes acontecimentos politicos da China, a revolta dos boxers, a intervenção das potencias, a penetração d´estas no isolado imperio asiatico, a lucta das ambições e dos interesses, teem chamado as attenções geraes para o extremo oriente e despertado natural curiosidade. Depois da partilha da Africa, veio a pretenção de dividir tambem a Asia. (...)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Imagens do Ultramar: carteiras de fósforos


Numa colecção de 20 carteiras de fósforos fabricadas pela Sociedade Nacional de Fósforos - série "Imagens do Ultramar" - na década de 1970, Macau surge nos números 11 e 12 com duas imagens: uma do casino flutuante (legenda Porto Interior) e outra do hotel Lisboa (legenda Um hotel). 

Série: Angola (n.º 1 a 5); Cabo Verde (n.º 6 e 7); Guiné (n.º 8 e 9); Índia (n.º 10); Macau (n.º 11 e 12); Moçambique (n.º 13 a 17); S. Tomé e Príncipe (n.º 18 e 19); Timor (n.º 20).
             fósforos



domingo, 15 de outubro de 2017

"História de Macau" por Manuel da Silva Mendes (1915)

"Não é raro que venham a Macau homens de sciência, geralmente comissionados por associações literárias ou científicas, no intuito de colher aqui elementos para estudos históricos ou de crítica. Os japoneses, os ingleses, os franceses, os americanos principalmente são os que se interessam mais por esses estudos. É natural que Macau, que foi por muitos anos o único porto na China aberto aos estrangeiros, seja considerado como uma excelente fonte de informações para a história dos tempos mais antigos dos europeus no Extremo-Oriente. Era por Macau que penetravam na China os embaixadores, os missionários, os negociantes, os exploradores. Em Macau foram impressos grande número de livros sobre a língua e a literatura chinesas, sobre os trabalhos das missões religiosas e políticas, sobre o movimento comercial, etc. A igreja de S. Paulo ou o que resta dela, os conventos de Santa Clara e S. Francisco, as muralhas, as fortalezas, a Horta da Companhia e tantos outros restos de antigos tempos ainda hoje ahi estão atestando que Macau foi um grande centro religioso, militar, comercial e social no Extremo-Oriente. Tudo o que eram relações de europeus ou americanos com a China, com o Japão, com as Filipinas, com Timor, com Sião e ainda em parte com a península de Malaca e com a índia, partia de Macau ou aqui vinha ter.
Deve-se afigurar, pois, a todos os estudiosos de coisas antigas, Macau como uma mina em que os materiais desejados sejam porventura de extracção difícil, mas abundantes e ricos. Foi aqui, terra de conventos de frades e de l'reir,terra de muitos homens e poucas mulheres.terra do aventureiros e de piratas, que inexaurível mina para romancistas!
Pois, meus senhores, podia Dante ter inscrito à entrada de Macau o «voi che entrate, lasciate ogni speranza» — porque do muito, do muitíssimo que podia e devia haver, não ha quási nada! Desapareceu quási tudo, e o que resta, está para aí abandonado.
Documentos escritos houve-os inúmeros; mas nunca se coligiram, nunca se seleccionaram, nunca se catalogaram, nunca se fez o devido caso deles. Andaram de armário para armário, de repartição para repartição, de mão para mão, como coisas velhas, bolorentas, inúteis. Outros, o maior número, foram queimados ou comeram-nos os vermes ou levaram-nos os tufões. E hoje, se se quiser fazer a história de Macau em face de documentos, é isso impossível, porque não existem.
Parece incrível, mas é verdade: uma colónia como Macau não tem história escrita — uma história completa. O sr. Montalto de Jesus publicou ha anos um volume em inglês que intitulou Historic Macao; esta obra, porem, conquanto útil e de merecimento, está longe de poder ser considerada como uma história desta colónia.
O Leal Senado de Macau, instituição quási tão antiga como a colónia, e que tem sempre exercido um papel preponderante na vida local, não tem história; nunca se lembrou de a mandar escrever. O facto não se justifica por falta de dinheiro, porque o Leal Senado tem-no tido bastante para isso. Não ha muitos anos dispendeu alguns milhares de patacas para ocupar os lazeres de dois oficiais do exército sob o pretexto de levantarem uma (levantada) carta de Macau...
A Santa Casa da Misericórdia, outra instituição com séculos de existência, também não têm história escrita. Existem no seu cartório uns livros velhos cie quási nenhuma importância ; os que tinham valor desapareceram. Não consta, de resto, que alguma vez tentasse pôr em letra redonda o que tem sido e o que tem feito durante a sua longa existência esta instituição. O Seminário, outra velha instituição, e o Bispado, não menos antigo, estão nas mesmas condições. Alguns documentos existem, velhos, poeirentos, meio comidos, por gavetas e armários; e é tudo. É uma pena; dezorganisação entrou connosco e não vemos sinais de ressurgimento. E é ao mesmo tempo uma vergonha que estrangeiros venham aqui frequentemente em viagem de estudo e tenham de partir desapontados. Ainda ha poucos dias isso aconteceu com um americano que aqui veio comissionado por uma associação scientífica de Washington.
Ainda se poderia fazer alguma coisa. Restam dos muitos que houve, vários maços de documentos no Leal Senado, na Santa Casa da Misericórdia, no Seminário, na Sé e em algumas repartições do Estado, que deveriam ser estudados, seleccionados, catalogados e impressos. Porque se não faz ao menos isso?
Dever-se-hia ir muito mais longe. Alem desses manuscritos, ha livros, opúsculos, revistas e outras publicações com notas interessantes para a história de Macau. Dever-se-hiam coligir e, ao mesmo tempo, dever-se-hia organizar um índice desenvolvido com referência a tudo quanto a colecção contivesse sobre o assunto e merecesse interesse ou importância.
Era assim que um dia, juntos que fossem todos estes elementos, alguém poderia abalançar-se a escrever a história de Macau. Não é de esperar que a iniciativa particular se lance em semelhante empresa; tudo isso exige muito tempo, muito estudo, muito trabalho, muitas despesas. Deverá o Estado, sendo como é o assunto de interesse público, empreende-lo, incumbindo pessoa ou pessoas competentes de o levar a termo; e só assim julgamos que é possível dar-lhe boa solução."
in O Progresso, Semanário Independente de Macau a 6 de junho de 1915.
tb publicado no Boletim da Segunda Classe da Academias das Sciencias de Lisboa. Vol. X 1915/1916

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Igreja do Mosteiro de S. Francisco

A foto acima é de 1844 e da autoria de Jules Itier. É muito provavelmente a única que testemunha o que foi a igreja do mosteiro de S. Francisco. Tirando isso, apenas os desenhos de George Chinnery permitem perceber o que foi este mosteiro fundado em 1579 e desaparecido em 1871.
Especialistas como Hugo Daniel da Silva Barreira destacam as "peculiaridades da cornija decorada e levemente mistilínea, formada por volutas e adornada por pequenos pináculos. Notem-se os vão ovalados do alçado, bem como as possíveis capelas ou dependências que acompanham a mesma parede" e ainda "a galeria frontal, um exemplo de galilé muito frequente nas igrejas da Ordem e a única (frontal) na arquitectura religiosa do território."
Desenho de G. Chinnery ca. 1830
No relato coevo de Frei Paulo da Trindade fica-se a conhecer o orago: "O convento que temos na cidade de Macau se fundou com título de Nossa Senhora dos Anjos da Porciúncula no ano de 1579".
Atentemos pois num excerto do relato do frei que pode ser lido na obra "Conquista Espiritual do Oriente. III Parte". Edição do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1967.
"(...) relataremos aqui um lastimoso caso que lá sucedeu em o ano de 1611, que foi o incêndio daquele convento, em que se queimou e tornou em cinza tudo quanto nele havia. E foi o caso que tendo os padres feito um presépio na festa de Natal para mais mover o povo à devoção daquele mistério, sem se saber como, se ateou o fogo nele e foi lavrando de feição que, sem lhe poderem dar remédio por mais que nisso se trabalhou, tomou fogo a capela do presépio e dali a igreja toda e depois a torre onde estava todo o bem do convento, e foi logo ateando nos dormitórios. (…) Mas é tanta a devoção que os desta terra têm ao nosso Seráfico Padre S. Francisco e a seus filhos que, saindo eles a pedir esmola para ajuda da restauração daquele convento, lhes [deram] em poucos dias seis mil taéis que são doze mil xerafins, e isto com muita vontade oferecendo-se para tudo o mais que fosse necessário. Afora alguns devotos mais particulares, que se quiseram avantajar em esta tão santa obra, dos quais um que é o síndico, tomou à sua conta a capela-mor para a pôr no mesmo estado e perfeição em que estava, e outro tomou o altar de Jesus, e outro o da Conceição com as imagens da Senhora e São José e todo o paramento do altar e outro tomou à sua conta o retábulo do nosso Padre S. Francisco, e outro depois de mandar trezentas patacas de esmola prometeu mais mil indo o seu navio a Manila, e outro deu quinhentas patacas na primeira viagem que fizesse, e a cidade prometeu de dar dois e mais por cento nas viagens de Japão e Manila. De sorte que hoje [1630-1636] está a igreja e o convento acabado com mais e maior perfeição do que antes estava, o que tudo seja para glória de Deus e louvor do seu servo fiel, o nosso Padre S. Francisco."
Desenho de autor desconhecido com a legenda "Franciscan church, Macao". Data provável: 1831
Reunido em sessão a 5 de Fevereiro de 1842 o Leal Senado pronunciou-se contra a ideia de demolir o Convento e Igreja de S. Francisco. A ideia era do governador Adrião Acácio da Silveira Pinto que ali pretendia construir um palacete residencial que tinha contígua a ela o «Campo Santo de Pública Devoção».
Alguns anos mais tarde, em Março de 1861, o governador Coelho do Amaral com autorização do Ministério da Marinha e Ultramar mandou demolir o Convento de S. Francisco e no seu lugar foi erguido o quartel para o Batalhão de Macau (Forte de S. Francisco) finalizado em 1866.
Desenho de Chinnery. ca. 1830

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A "Vila Silva Mendes"

Manuel da Silva Mendes chegou a Macau em Maio de 1901 e poucos anos depois começou a construir na encosta da Guia um edifício que viria a ser a sua residência, a Vila Silva Mendes. Para isso tomou de aforamento um terreno. O edifício pode ver-se na imagem acima - ca. 1910 - por cima do Quartel de S. Francisco e em baixo numa fotografia publicada na revista "Ilustração Portugueza" em Dezembro de 1908. 
Para saber mais sobre a história 'atribulada" da construção da "Vila Silva Mendes" consultar a Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931" e/ou este artigo de Fernando Sobral no Jornal de Negócios.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

As "Visões da China" de Jaime do Inso


Em 1933 era impresso na Tipografia Élite e editado pela Livraria J. Rodrigues, em Lisboa, "Visões da China", um livro da autoria do então Capitão Tenente Jaime do Inso (1880-1967), que morreu há 50 anos. Ao todo são cerca de 400 páginas que reúnem uma colectânea de artigos escritos para jornais portugueses, brasileiros e macaenses entre 1926 e 1932.
Para além dos registos típicos da literatura de viagem inclui inúmeras imagens. As últimas 100 páginas são dedicadas a Wenceslau de Morais (uma espécie de biografia), a viver no Japão, também ele com um passado de marinheiro e que trocava correspondência com Jaime do Inso. “(...) realiso assim o que julgo um dever, depois que conheci o Oriente: - este livro visa, como o anterior, não a resolver o problema, para que é preciso a competência e a vontade de muitos, mas a agitá-lo, pondo em foco a nossa bela colónia de Macau, e se tanto conseguir, estará recompensado o meu trabalho. É uma grande parcela de Portugal, que não devemos desprezar, o Oriente Português!”
Este excerto do ante-prefácio de Wenceslau de Morais foi retirado de uma carta datada de 1927. A capa do livro é da autoria de Júlio Alves.
Jaime do Inso assina o prefácio onde explica: “O aparecimento deste livro deve-se, em grande parte, a Wenceslau de Morais. O livro é, por assim dizer, uma continuação, um complemento do outro livro anterior – “O Caminho do Oriente” – e ambos pretendem constituir como um cenário de quadros reais, onde se procura desenhar o ambiente tão típico e único da nossa vida colonial, como é o de Macau. No “Caminho do Oriente”, começa-se a tomar contacto com o Oriente, particularmente com a China; neste livro, a convivência alarga-se, torna-se mais vasta e íntima, sem ser menos tentadora, talvez, mas nunca tão completa que esgote a matéria, porque à medida que as profundamos, mais cresce o abismo que nos rodeia. Quantos volumes eu pudesse escrever, não chegariam para o devassar: – «Duas mil páginas, dois milhões de páginas, também nada diriam, porque o assunto é enorme!…

Sobre a China, Jaime do Inso escreve (primeiro no jornal "A Pátria" a 22.2.1928):
"A China absorve-nos, narcotiza-nos, prende e domina, como regra geral, o nosso espírito, invade tudo, o raciocínio e o sentimento, como uma teia invisível que aperta, pouco a pouco, insensivelmente, que nos sufoca, esgota e cansa! A China é traiçoeira e calma, insinua-se quanto mais se aborrece, deseja-se quando se odeia, aspira-se como uma necessidade, a China, que quase até nos mata!
A China é como uma feiticeira que tem sortilégios, é a cartomante terrível que parece escrever o nosso destino com letras invisíveis: há no seu ambiente um sopro de agoiro, uma agonia, uma tristeza, uma tortura, que se recebem sem custo e com prazer, como uma necessidade fatal da nossa existência. A China é o mistério que ri e que dança na frente de nós, numa volúpia dolorosa do espírito duende, a China é a mensageira do desconhecido que perturba, enerva, envenena e vence. A China é tudo isso e muito mais ainda que a minha pena não sabe descrever, a China não se define, só se respira e sente, como um veneno imprescindível a quem uma vez o provou. (...)

Jaime do Inso publicou várias obras sobre a presença de Portugal no Extremo Oriente e deixou inúmeros textos avulso sobre Macau - publicados na imprensa da época em Portugal, Macau e Brasil) e alguns livros. Não sendo exaustiva, aqui fica uma lista:
Artigos:
- Ecos de Macau. Guerra dos Piratas. A Batalha de Lantau (Anais do Clube Militar Naval) (1912)
- Macau: estância de repouso e de turismo (1929)
- Macau: extracto de uma monografia (1930)
- Quadros de Macau (no livro Fausto Sampaio, pintor do ultramar português, 1942)
Livros:
- Macau: a mais antiga colónia europeia no extremo-oriente (1929)
- Cenas da Vida de Macau
-
O Caminho do Oriente (1932) reeditado em 1996 pelo IC
- Visões da China (1933) reeditado em 1997 pelo IC

- China (1936)
- Conferências:
- "Macau, a jóia do Oriente", SGL, 1913

- "O Presente e o Futuro de Macau", SGL, 1920
Foi ainda responsável pelos artigos sobre o território na altura da Exposição Ibero-Americana de Sevilha, em 1929.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O "Porto Interior" na Sala de Audiências

Uma das divisões do Palacete de S. Bento, residência oficial do primeiro-ministro português, denomina-se Sala de Audiências e é considerado o local mais nobre do espaço, sendo ali que o chefe de governo recebe as visitas oficiais. Nessa divisão, sobre a lareira, desde 1989 está uma pintura de Macau intitulada Porto Interior (de Macau), da autoria de Fausto Sampaio em 1936.
No âmbito de uma remodelação do palácio (que vai passar a ter obras de arte em regime de rotatividade), a obra de Fausto Sampaio vai voltar às origens, ou seja, ao Museu do Chiado, mas nas reservas, ou seja, não acessível ao público.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

"Macau excede em valor histórico todos os estabelecimentos europeus no Extremo Oriente"

A 1 de Maio de 1909, Manuel da Silva Mendes fez parte de uma reunião pública “para versar questões relativas a salvação e para se pedirem providências ao governo da metrópole” que decorreu nos "Paços do Concelho" (Leal Senado) onde, juntamente, com outras personalidades da época, aludiu à crise política e económica que se vivia no território, e apelou à intervenção do então "governo da metrópole". O texto do discurso seria publicado a 9 de Maio no jornal Vida Nova.
"Como cidadão português e como interessado directa e pessoalmente na prosperidade desta colónia, eu não devia faltar a este ajuntamento do povo de Macau, em que ele procura achar os meios que mais convém adoptar nesta hora de crise. Chegou, efectivamente, uma hora para esta colónia, em que não é lícito a nenhum cidadão português deixar de prestar o seu concurso na solução do problema que nos assoberba.
Macau não morrerá; assim o esperamos e assim deve ser; mas para que não desapareça do mapa do mundo colonial português, e também para que, ficando terra portuguesa, não passe a viver uma vida apenas vegetativa, é absolutamente indispensável que se produza uma acção forte de vontades em todos nós e que às nossas determinações corresponda uma acção enérgica e intemerata conquanto prudente e reflectiva.
Senhores! A crise que avassala esta colónia não é inteiramente recente. Ela começou de manifestar-se sob carácter económico após a guerra russo-japonesa, para mais tarde se agravar com o krak financeiro da América do Norte, que bracejou para a Europa e para a Ásia. Todo o Extremo Oriente se ressentiu gravemente desta crise, que nestas partes tomou especialmente o carácter de depressão comercial, e ainda hoje afecta todos os mercados do Extremo Oriente. Este ponto é indispensável tê-lo em vista para a justa compreensão da nossa situação.
Não foi Macau, pois, o único mercado atingido: foram-no todos os do Extremo Oriente; e apraz-me consignar que mais que o nosso outros sofreram e estão sofrendo – Tientsin, por exemplo, que se acha numa situação verdadeiramente inextricável. Felizmente, essa situação vai melhorando por toda a parte; o horizonte económico apresenta claros sinais de desanuviar-se. Declarou-o há poucas semanas com autoridade para falar no ponto, o presidente da câmara de comércio da vizinha colónia de Hong Kong; e demonstra-o o actual movimento, realmente animador, das bolsas de Londres e Hamburgo, que são na Europa barómetros certos do estado económico do Extremo Oriente.
E Macau, pelo que eu tenho podido observar (se erradas não têm sido as minhas observações), não apresentará talvez sinais evidentes de ressurgimento – o que eu explico pela fraqueza das suas forças anteriores – mas vai agora realizando em relativa, quase satisfatória tranquilidade as suas minguadas transacções – tranquilidade que eu julgo sinal precursor de convalescença. Não viria, pois, mal de morte a Macau se à aludida crise não viessem à última hora ajuntar-se, para a complicar, factores de ordem política e recentemente financeira. Eis aí o mal com mais graves aspectos. 
Incidentes vários com as autoridades do Império Chinês, que são do conhecimento de todos e por isso não recordarei, trouxeram a questão da delimitação de Macau e azedaram os ânimos da população dos distritos vizinhos, a ponto de se nos pretender negar direito ao senhorio de terrenos que de há séculos ocupamos, possuímos, usufruímos e são nossos, e das águas que banham o litoral da colónia.
Devemos crer que o governo da metrópole não dorme; devemos crer que está cumprindo e cumprirá com patriotismo o seu dever. Mas é preciso, é absolutamente indispensável que haja urgência na solução desta pendência, pois que ela nos será desfavorável na medida da demora que se puser em resolvê-lo. Reclamemos, pois, urgência: lembremos ao governo da metrópole que toda a demora nos será prejudicial; que venha o mais rapidamente possível o delegado português para a delimitação da colónia.
Com este assunto prende-se a questão das obras do porto, cuja execução há mais de trinta anos se reconheceu ser de urgente e inadiável necessidade. É uma questão de vida ou de morte para esta colónia. Se deixarmos que os nossos vizinhos de Heung-chao se nos adiantem; se nós nada fizermos e eles fizerem, como projectam, aí um porto com as indispensáveis condições; se Heung-chao se tornar o terminus das várias vias férreas que indubitavelmente num futuro próximo hão-de cortar os ricos distritos vizinhos – Macau tornar-se-á, não já numa aldeia de pescadores, mas um lugar deserto ou um montão de ruínas. (…)
É desnecessário, porém, meus senhores, repetir o que todos sabemos, avivar o que todos sentimos. As necessidades da colónia são palpáveis, evidentes; e o perigo da sua não imediata satisfação a todos é tão manifesto, que eu não quero ser prolixo, descrevendo-o em mais traços. Passa para a colónia uma hora das mais angustiadas da sua longa existência. Passa uma hora em que não é lícito à metrópole, que das situações prósperas desta terra se tem aproveitado, deixar de olhar agora para ela com excepcional e particular atenção.
Macau é terra portuguesa e isso basta dizer. Mas Macau é também o marco que Portugal plantou mais distante nos heroicos tempos da sua gloriosa epopeia marítima. Macau é quem dá nome do Extremo Oriente a Portugal. É a Macau que a Europa e a América devem a sua iniciação no comércio com o vasto Império Chinês. Aqui se estabeleceram os armazéns das históricas e poderosas companhias da Índia e Holandesa, em segurança que noutra parte não tinham. Por aqui entraram, aqui se estabeleceram e aqui se refugiaram nas horas de perigo os primeiros pioneiros da civilização ocidental, os primeiros comerciantes e os primeiros missionários, que da Europa e da América vieram à China.
Macau excede em valor histórico todos os estabelecimentos europeus no Extremo Oriente; quase todos os povos europeus aqui têm uma parte da sua história. Macau é, pois, credor da gratidão da Europa. Aos sentimentos de estranhos não temos, porém, necessidade de recorrer. Cumpre-nos tão somente neste momento congregar os nossos esforços para debelar a crise por que a colónia passa; e como é de evidência que só por nossos esforços a não podemos vencer, façamo-lo saber à metrópole para que com o seu auxílio Macau possa ressurgir à altura dos seus antigos tempos de esplendor.”

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Festival do Meio do Outono

O Festival do Meio do Outono - Chong Chao Chit -中秋節, 中秋节 - celebra-se no 15.º dia da 8.ª Lua - o Equinócio do Outono - e tem origem na China rural sendo uma festividade ligada às colheitas agrícolas. É a segunda maior festividade chinesa, depois do Ano Novo Lunar, e também nestas datas, a família ganha especial importância.
Entre os rituais festivos contam-se: a Festa do Bolo Lunar; Festa das Lanternas muito semelhantes à que ocorre no 15.º dia da primeira Lua.
Em Macau o Festival do Meio do Outono também se celebra com destaque para o facto de os bolos lunares fabricados no território - na zona da rua dos Mercadores - serem dos mais apreciados em todo o sul da China.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes

No próximo dia 23 Outubro assinalam-se os 150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes. Para assinalar a data será possível adquirir a "Biografia" em condições especiais ao longo deste mês. Mais novidades em breve...



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Estátua do Buda das 4 Faces

A estátua do Buda de Quatro Faces veio da Tailândia para Macau em 1984 sendo colocada na Taipa frente ao Jockey Clube. Trata-se um pavilhão miniatura colocado sobre uma plataforma octogonal e um pequeno pódio de três degraus. Está fechado em redor por barras metálicas, com santos budistas em cada um dos cantos do altar, de guarda ao Buda. Os quatro pilares do altar estão decorados com frisos, finamente esculpidos em madeira e o seu tecto de três níveis está ornamentado a ouro. O topo do telhado é abobadado e coberto de telhas de cerâmica de forma rombóide. Apresenta a forma de um vaso, com o bojo a estreitar-se para cima como um “stupa”, terminando por um enfeite no topo, numa arquitectura típica dos templos do sudeste asiático. O Buda tem as quatro faces viradas nas quatro direcções cardeais e com as mãos a empunhar vários objectos, nomeadamente, rosários, concha, um jarro para água, uma placa com os sutras (escrituras sagradas) e a roda do Dharma que alude à omnipotência do Buda. 
O Buda de Quatro Faces é uma divindade originária da Índia e venerado no sudeste asiático, sendo especialmente popular na Tailândia, conhecido por auspiciar riqueza, boa sorte e honra aos que o veneram. 
Postal da década de 1990

domingo, 1 de outubro de 2017

Três datas em Outubro

Tempos houve em Macau que entre 1 e 10 de Outubro se celebravam três datas distintas: a 1 de Outubro, a implantação da República Popular da China (1949), a 5 de Outubro, a implantação da República em Portugal (1910) e a 10 de Outubro, a implantação da República na China (1911). Com inúmeras repercussões na vida do território, a estas datas estão ligadas várias personagens, como são o caso de Sun Yat-Sen e Carlos da Maia.
 Carlos da Maia foi o 105º governador de Macau
Av. da República em Macau

sábado, 30 de setembro de 2017

Altar do Cristo Rei na Sé

A igreja da Sé em Macau tem no interior vários altares. Um deles é o do Cristo Rei nas imagens abaixo: primeiro num postal da década de 1980 e depois numa fotografia do século 21.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A ponte das nove curvas

Provavelmente um dos mais bonitos jardins de Macau (e são cerca de uma dezena no total) o Jardim Lou Lim Ieoc é o único verdadeiramente de estilo chinês. Foi mandado construir nos primeiros anos do século XX pelo comerciante Lou Cheok Chin (1837-1906) que se fixou em Macau por volta de 1870. Por essa altura contratou em Cantão os serviços de dois profissionais, Lau Kat Lok e Lei Tat Chun, especialistas em jardinagem.
A zona - do Tap Seac - era na época pantanosa e os lagos abundantes e o seu projecto passava pela construção de um jardim chinês ao estilo do século XIV, da zona de Suzhou. Baptizado de Jardim das Delícias, acabou por ficar conhecido pelo nome do seu proprietário ou do seu primogénito, comummente designado por Jardim do Lou Kau ou Jardim do Lou Lim Ieoc. Actualmente ocupa uma área de pouco mais de 1 hectare, cerca de metade da inicial, pois após a morte de Lou Lim Ioc os seus descendentes alugaram, em 1938, parte do jardim à escola Pui Cheng e mais tarde à Escola Leng Nam. A partir de 1951, uma grande parte da sua área foi urbanizada. 
Em 1973 foi adquirido pelo governo de Macau aos descendentes da família Lou. Depois de totalmente recuperado, abriu ao público a 28 de Setembro de 1974. Está repleto de recantos e lagos onde se evidenciam os nenúfares e flores de lótus. É usado para passeios sendo habitual os utilizadores tocarem instrumentos musicais ou praticar Tai-Chi. 
Outra das imagens de marca deste espaço são as gaiolas tradicionais chinesas com pássaros lá dentro e que os seus proprietários levam a passear. Ao contrário do que é habitual nos jardins tipicamente chineses, neste, a ponte que atravessa o lago, não é feita em linha recta. Antes, pelo contrário, é às curvas, num total de nove. Segundo a tradição, quem passar pelas curvas da ponte, deve formular um desejo, pois verá esse desejo transformar-se em realidade.